A espera por um jogo do Wolverine foi longa. Desde o lançamento de X-Men Origins: Wolverine, em 2009, os fãs de Logan aguardavam por este momento. Com a Insomniac Games no comando, a expectativa era de um título tão bom quanto (ou pelo menos igual a) Spider-Man 1 e 2. Inclusive, dizem que ambos dividem o mesmo universo. A ideia parecia promissora. Porém, após finalizar o jogo, fiquei com um gosto amargo na boca. Confira a análise completa de Marvel’s Wolverine.
ATENÇÃO! ATENÇÃO! Não gosto de dar spoilers — principalmente sobre a história — em minhas análises. Mas, desta vez, não tem como. Então, tome cuidado! Se você ainda não jogou Marvel’s Wolverine, saiba que este texto contém alguns spoilers (principalmente sobre a trama).
Ainda aqui? Então, vamos nessa!
Demorei um pouco para escrever estas linhas porque Marvel’s Wolverine me deixou um tanto quanto dividido. Na pele de um gamer que só quer se divertir, o jogo entrega bastante coisa. O novo título da Insomniac é, de longe, o mais bonito entre os exclusivos do PlayStation 5. Os efeitos de partículas, sombras, iluminação e a construção dos cenários: tudo teve uma atenção aos detalhes de cair o queixo.
O jogo é tão bonito e bem-feito que o fotógrafo virtual dentro de mim foi resgatado do limbo. Fazia tempo que eu queria voltar às capturas de tela, mas nenhum jogo tinha me instigado até a chegada de Marvel’s Wolverine. As texturas, os uniformes, as garras... tudo fica ainda mais perfeito no Modo Foto. A Insomniac Games já tinha mostrado nos jogos do Homem-Aranha como se faz, e, com o Wolverine, o modo está ainda melhor. Mas vamos ao que interessa!
O mais novo jogo do Baixinho — ainda sob o ângulo de um gamer — é pura diversão! Estraçalhar inimigos com as famigeradas garras de adamantium enquanto o sangue jorra para todos os lados era uma das coisas que eu mais queria. Os efeitos sonoros aumentam ainda mais a imersão. Wolverine arfa, grita e esbraveja como um verdadeiro carcaju lutando pela vida. A dublagem brasileira ficou a cargo do talentoso Arthur Machado. Joguei as primeiras horas dublado em português e depois mudei para o áudio original, como sempre faço. Apesar de a versão tupiniquim estar satisfatória, o jogo mudou completamente quando coloquei a voz de Liam McIntyre. Nada contra os profissionais brasileiros, mas, neste caso, o áudio original deu outra vida ao título. Sinceramente, minha análise seria um pouco diferente se eu tivesse zerado ouvindo apenas o áudio em português. Marvel’s Wolverine acaba ficando mais crível. Afinal, um jogo tão bem acabado merece um lip sync perfeito! Pode parecer pouco, mas, para quem busca perfeição, esse detalhe é indiscutível.
Com gráficos de ponta, áudio impecável e gameplay divertida, parece um jogo sem falhas. Errado! Com cerca de duas ou três horas de jogo, já foi possível experimentar todos os sistemas de gameplay. Se como gamer casual eu me diverti, como jornalista a satisfação foi bem diferente. E tudo por culpa das milhares de decisões erradas tomadas pela equipe. Não sei se houve dedo da Sweet Baby Inc. no roteiro, mas, infelizmente, a história — assim como alguns elementos de gameplay e narrativa — não conseguiu alcançar o mesmo nível dos gráficos.
O maior problema é a “novela” entre Logan e Jean Grey. Por ser uma história de origem, acompanhamos o encontro dos heróis e o desenvolvimento do romance entre eles. Em Marvel’s Wolverine, Logan tem amnésia, e Jean é responsável por trazer suas lembranças de volta enquanto ajuda o Caolho a combater os inimigos. Além de simples, o roteiro cria uma tensão entre Wolverine e Nathaniel Essex — dublado pelo excelente Troy Baker — que depois é jogada no lixo.
Logan passa o jogo todo buscando seu passado ao lado da Ruiva. Seus longos anos de sobrevivência foram permeados pela presença de Jean. Porém, como perdeu a memória, ele não se lembra desses encontros. O clímax aumenta quando Logan percebe que Essex está por trás de tudo e parte para cima do vilão. Até aí, nada fora do normal. Contudo, tomado de raiva porque um certo Apocalipse invadiu sua mente, Wolverine fica fora de si. E a única maneira de acalmar o herói foi — adivinhem — a Jean apagar as memórias do cara! Ah, eu não consegui acreditar. Tudo o que passei, todos os inimigos que enfrentei, todo o romance com a Jean, toda a aventura... pareceu que nada valeu a pena. Voltamos à estaca zero! Uma decisão errada, assim como a introdução do Apocalipse.
O vilão mais marcante dos X-Men só aparece como uma voz nas mentes de Logan e Jean. Mas, em mais uma decisão equivocada, sabemos que aquela voz é de En Sabah Nur porque simplesmente o nome dele aparece na legenda. O que custava colocar “Voz Misteriosa” ou alguns pontos de interrogação para indicar o interlocutor? Não: decidiram revelar o Apocalipse sem a menor cerimônia. Seria muito mais surpreendente se essa revelação só acontecesse quando Jean, na cena em que ajuda Logan a sair do transe, falasse sobre ele. Decisão errada!
Outro ponto discutível é a evolução de Logan que não é nada orgânica. Tudo bem que o personagem é apelão por natureza, mas é tão fácil subir de nível que, antes da metade do jogo, eu já tinha liberado praticamente todas as habilidades. A sensação de progressão é fraca, e a velha fórmula de desafio e recompensa é inexistente. Outra decisão errada é a possibilidade de “zerar” o jogo sem quase encostar no controle. Por ser um jogo linear, eu esperava muitas set pieces cinematográficas que me fizessem sentir o verdadeiro Wolverine. Infelizmente, não é o caso.
O jogo tem vários momentos — muitos mesmo, além da conta — com cenas gravadas que poderiam facilmente ser set pieces com os famosos Quick Time Events. Porém, em mais uma decisão errada (e aí não sei se a SBI teve dedo nisso), optaram por deixar o jogador apenas como espectador. Ora, se eu quisesse apenas assistir, teria dado o play em algum filme do Wolverine. Foi uma escolha bem equivocada, pois fica nítido que preferiram retirar a gameplay dessas seções.
Mas o que me deixou mais triste foi o tratamento dado ao rosto de Logan. Não consigo fechar os olhos sem que aquele semblante de “cachorro sem dono” apareça na minha mente. Wolverine é sinônimo de um ser animalesco, furioso e sem tempo para frescuras, o que não acontece aqui. Eu sei que as capturas foram feitas para que Logan ficasse parecido com Liam McIntyre, mas poderiam ter ajustado alguns traços para que o personagem lembrasse mais sua essência original. Sinceramente, a impressão que dá é que o Logan sempre tira um tempo para retocar o lápis de olho.
Vejam bem: quando ele está com o traje completo (roupa e máscara), é o carcaju encarnado. Mas, na maior parte do tempo, está com roupas civis ou o traje vai se degradando e, devido a mais uma decisão errada, é impossível trocá-lo. São trechos inteiros com o Wolverine bancando o durão só para, em um corte de cena, mostrarem aquele olhar... aquele maldito olhar!
Marvel’s Wolverine tinha tudo para ser o jogo definitivo do herói mais aclamado dos quadrinhos, mas está recheado de decisões erradas. Sem dúvida, a Sweet Baby Inc. teve um papel preponderante nessas escolhas. Definitivamente, não é um jogo que vale R$ 400,00. E, se há um ponto positivo nessa história toda, é que a Sony precisa urgentemente rever sua parceria com a SBI se quiser voltar aos trilhos.







