Mixtape: Uma Nostálgica Viagem aos Anos 90
Aventura adolescente não é para as gerações mais novas
“Na minha época era melhor.” Já reparou que todas as gerações têm o mesmo mantra? Por que na sua época era melhor? Sempre me perguntava isso quando meu pai comentava algo da juventude dele. O que raios um garoto correndo descalço pelas ruas de Tupã nas décadas de 50 e 60 fazia? Só fui entender agora, com 43 anos na cara, casado e com três filhos. Então, se você não vivenciou a rebeldia dos anos 90, o “jogo” Mixtape definitivamente não é para você.
Antes de mais nada, deixe-me explicar por que coloquei “jogo” entre aspas. Mixtape, desenvolvido pela Beethoven & Dinosaur e produzido pela Annapurna Interactive, está mais perto de uma experiência do que de um game. É possível finalizar a história em cerca de 3 horas e, na maior parte do tempo, você assiste às cenas sem precisar fazer nada. Em outros momentos, temos que pegar alguns itens, explorar e conversar com os personagens. Mixtape é isso: tão simples quanto nostálgico.
A Annapurna apostou mais na mensagem do que na gameplay. A produtora tem uma bagagem excelente quando o assunto é “histórias para contar”. Jogos como The Artful Escape — também da Beethoven & Dinosaur — e Stray, além de serem muito bem-feitos graficamente falando, possuem narrativas belíssimas. Em Mixtape, no entanto, eles foram longe. Deixaram o apertar de botões em segundo plano para focar totalmente na experiência da protagonista Stacey Rockford ao lado de seus melhores amigos, Cassandra Morino e Van Slater.
Após o término do colegial, Rockford quer fazer a despedida perfeita. Seu sonho é se tornar uma espécie de produtora musical em Nova York. Desde tenra idade ela compila suas trilhas favoritas em diversas mixtapes (e CDs) e, em seu último dia na cidade, ela tem a fita perfeita. O objetivo é afanar algumas bebidas da irmã mais velha, reunir os amigos e ir para uma festa do colégio.
Além da viagem nostálgica de volta aos quartos cheios de pôsteres, de andar de skate na rua, fazer pirraça com o diretor da escola e reclamar da vida, Mixtape é certeiro na trilha sonora. O jogo é recheado de bandas famosas. Rainbow, DEVO, Silverchair, The Smashing Pumpkins, Iggy Pop e tantas outras estão lá para acompanhar a aventura de Rockford e seus amigos.
Cada faixa tem o momento certo no jogo. Muitas delas são viagens no espectro mais maravilhoso da música. A trilha orquestrada Remember When, de Mitch Murder, por exemplo, te leva para o cosmos da rebeldia adolescente, enquanto Freak, do Silverchair, quebra tudo e deixa claro que Rockford não tem medo de ser feliz.
Sem entrar em spoilers — quem é que gosta de spoilers? —, é óbvio que o planejado não sai como o esperado. Assim como todo adolescente, Rockford é cheia de dúvidas e rebeldia. Não sei vocês, mas comigo foi exatamente assim ao longo dos Anos 90. A principal mensagem em Mixtape é de que uma criação fechada e cheia de regras vai tornar um adolescente mais rebelde do que ele poderia ser. Mais verdadeiro, impossível.
Meus pais — meu pai, principalmente — eram daqueles que batiam e colocavam de castigo. Para que conversar e tentar entender o que estava acontecendo se um bom pescotapa resolvia a situação? Sentar e perguntar como eu estava me sentindo depois de ter levado um zero em matemática não resolvia. Mas o tapão na orelha era garantido. Confesso que na maioria das vezes — eu diria 99,99% delas — eu mereci todos os sermões, cintadas e chineladas; mas, como com Rockford, a rebeldia foi sendo nutrida aos poucos e, quando meus pais perceberam, era tarde demais.
O álcool e o cigarro entraram cedo na minha vida. Mas que fique claro que eu fazia aquilo para afrontar “o sistema”. Fodam-se as leis! Fodam-se as regras! Ser rebelde era muito melhor. Aprontei muito nessa fase da vida e dei alguns bons sustos nos velhos. Hoje eu olho para trás e dou risada. Afinal, se arrepender e tentar refazer as coisas é impossível. E, quando joguei Mixtape, tive uma volta no tempo e pude refletir sobre o quanto eu poderia ter sido diferente. Mas, como dizia o Gladiador: o que fazemos em vida ecoa pela eternidade, ou algo parecido.
Mixtape me fez rir, me fez chorar e me fez perceber que, sim, na minha época era mesmo melhor — da mesma maneira que na época dos meus pais era melhor —, e tenho certeza de que para as gerações mais novas o sentimento é o mesmo. O ser humano é egoísta. Fazer o quê? Por isso, afirmei que Mixtape é perfeito para quem foi adolescente nos anos 90. Além da seleção musical arrasadora — prêmio de melhor trilha sonora, por favor —, o título conta uma história que provavelmente muitos viveram naquela época. É tudo uma questão de identidade.
Mixtape está disponível para PlayStation 5, Nintendo Switch 2, PCs, Xbox Series X/S (também no Game Pass).



