Quem acompanha o mundo dos games sabe que todos os holofotes estão voltados para o GTA 6. Na última quarta-feira, 4 de novembro, a Sensor Tower estimou 7,71 milhões de reservas digitais do jogo. Mas o número que me chamou a atenção foi outro: segundo a mesma estimativa, 74% dessas reservas (5,74 milhões) são de PS5, e apenas 26% (1,97 milhão) são de Xbox Series X|S. Se GTA 6 é o maior lançamento da geração, ele também pode ser o atestado de óbito do Xbox como console.
Os números da própria Microsoft ajudam a entender. No trimestre de julho a setembro, a receita do Xbox caiu 2%, para US$ 5,38 bilhões; a de hardware despencou 14%. Até a parte de conteúdo e serviços, que deveria ser a tal salvação da lavoura, recuou 2%, puxada por Game Pass e jogos de terceiros. E a própria empresa avisou que espera mais queda no próximo trimestre. No mesmo período, a Microsoft como um todo lucrou US$ 36,6 bilhões. Segundo a Fortune, com base em estimativas de mercado, os consoles atuais do Xbox venderam pouco mais de um terço do que o PS5. A divisão de games virou o primo pobre de uma empresa que usa cheat code para ter dinheiro infinito.
Em junho, a CEO do Xbox, Asha Sharma, disse à Bloomberg que GTA 6 é “uma das partes mais importantes da cultura” e prometeu apoio total. Em outubro, o The Verge relatou que ela teria dito aos funcionários que o jogo seria exclusivo do Xbox Cloud Gaming no streaming. No dia seguinte, o diretor de estratégia, Matthew Ball, desmentiu: não haverá exclusividade nem streaming para PC. Ou seja, a grande cartada que se cogitou para o jogo do ano nem era o console — era a nuvem. E nem isso vingou.
Numa reunião interna em outubro, relatada pelo Windows Central, Sharma disse que o Xbox, depois de chegar ao fundo do poço, voltou a crescer — sem apresentar números. Também prometeu uma “família de dispositivos” na próxima geração e “um ótimo console”. Bonito no discurso. Mas, segundo a Fortune, o próximo console, o Projeto Helix, custaria entre US$ 1.200 e US$ 1.800 sem subsídio, de acordo com projeções internas, e a própria Sharma admitiu que a Microsoft não consegue construir o Helix sozinha. E quem paga o pato é sempre o consumidor. E se o jogador for brasileiro, paga ainda mais.
Se for comparar com a Sony, a Microsoft nunca deu muita bola para o mercado brasileiro. Talvez o ápice da empresa por aqui tenha sido o lançamento do Xbox 360 e, mesmo assim, ficou atrás do PlayStation 3 e do Nintendo Wii. A base instalada sempre foi menor em relação à concorrência e para piorar, as barraquinhas dos jogos 3 por 10 mal tinham cópias dos exclusivos Xbox.
Porém, o jogador de Xbox não tem culpa nenhuma disso — 1,97 milhão de reservas não é pouco, e GTA 6 vai chegar ao Series X|S no mesmo dia que ao PS5. O problema, como sempre, é o dinheiro. Nos últimos anos os acionistas trataram o console como acessório, compraram uma centena de estúdios só para empurrarem reestruturações goela abaixo e demitir gente aos montes. Segundo a Fortune, já foram 1.868 demissões de um plano de 3.200, com novas rodadas previstas para novembro e janeiro. Ora, se nem a dona do console dá um motivo para comprá-lo, por que o jogador daria?
A verdade é que o GTA 6 não vai matar o Xbox. Essa façanha é da própria divisão de games da Microsoft que vem matando o console há anos. Se eles querem mesmo continuar no ramo dos consoles, e se a Asha Sharma quiser continuar como CEO durante os próximos anos, precisam urgentemente de jogos exclusivos que façam alguém sair de casa para comprar a caixa, detalhe, sem um preço abusivo - o que não me parece que será feito. Até lá, o Xbox seguirá dando bom dia com o chapéu alheio.



