Feliz Dia dos Pais Gamers
Porque Kratos É o Maior Símbolo da Paternidade nos Videogames
Sempre tive uma relação muito próxima com os videogames. Desde cedo peguei gosto pela coisa e lembro com carinho de cada fase da minha vida gamer. Nos últimos anos, porém, jogo mais do que deveria e menos do que gostaria. Sabe como é: vida de pai gamer não é fácil. E tem um protagonista que ilustra muito bem essa relação entre pai e filhos. Estou falando de Kratos, da franquia God of War.
Acompanho o Deus da Guerra desde a sua primeira aparição, em março de 2005. Sinceramente, eu ainda não tinha parado para pensar sobre isso até começar a escrever estas mal traçadas linhas. Já são mais de 20 anos! E cá estou eu, duas décadas mais velho, pai de três e com algumas histórias para contar.
Lá estava eu, no alto de meus 23 anos — uma vez criança, criança para sempre —, indo comprar o game em alguma barraquinha perto de casa. Depois de ter jogado o início da aventura, pensei comigo mesmo que deveria mostrar aquilo para alguém. Então fui correndo com o meu PlayStation 2 para a casa de um amigo. Que tarde maravilhosa! A casa dele tinha um quintal nos fundos. Levamos a tubona de 29 polegadas da sala, abrimos uma latinha e começamos a jogatina.
Depois do primeiro God of War, foram mais sete títulos principais lançados. A grande virada de chave foi com o jogo de mesmo nome que chegou em 2018 para o PlayStation 4. Mas antes de falar sobre o “garoto” e seu pai, é preciso lembrar que Kratos só virou o Deus da Guerra por conta da paternidade.
Cego pela fúria e sedento por sangue, Kratos ceifa a vida de sua esposa e filha. Cansado dos anos guerreando em nome dos deuses gregos, ele queima a cabana junto com os corpos de sua família. As cinzas aderem à sua pele, transformando-o no temido Fantasma de Esparta. Kratos então inicia sua vingança para acabar com aqueles que o traíram! POOOOOORRA! Que pai faria diferente? Pode mexer comigo, mas não mexe com a minha família.
Na época, eu não entendia direito suas motivações. O que eu queria mesmo era descer a bordoada nos inimigos, arrancar os seus membros e ver o sangue jorrar na tela. Mas o tempo foi passando e todos os envolvidos na vida de Kratos — sim, estou falando dos criadores, diretores, produtores, roteiristas, dubladores, programadores etc. — foram amadurecendo. O mesmo aconteceu comigo. E quando a Santa Monica Studio lançou o novo God of War, em 2018, eu já era pai de três, sendo o primogênito um “garoto”.
Quando dei o play pela primeira vez, não podia acreditar no que os meus olhos estavam vendo. Um Kratos mais velho, barbado e com um filho. Aquilo explodiu a minha mente. É como se os roteiristas tivessem escrito a história para mim. Antes um jovem adulto rebelde, que se achava o pica das galáxias e que nada ia acontecer com ele; agora, um adulto responsável que mede as palavras porque precisa ser melhor. Eu me vi naquele Kratos! Não que eu fosse uma pessoa furiosa — mesmo tendo a minha cota de rebeldia, depois que virei pai, tudo isso ficou apenas na memória.
Kratos deixou sua terra natal para encontrar uma nova vida bem longe de casa. Mas, como dizem por aí, casa é apenas um estado de espírito. Ela está onde nós estamos. Melhor ainda se for junto com a nossa família. Ao lado de seu filho Atreus, o antigo Fantasma de Esparta ainda precisa lutar contra o seu passado. É quase uma sessão de terapia, só que, em vez de ficar conversando, você senta o braço em quem aparecer pela frente. Existem jeitos e jeitos de se lidar com os demônios pessoais.
Uma das cenas que mais me marcaram nesta fase do papai Kratos é quando Atreus faz algum tipo de cagada e fica se desculpando. Então, com sua voz poderosa — meu amigo Ricardo Juarez mandou bem demais na dublagem brasileira —, ele se vira para o garoto e fala: “Não quero desculpas, apenas melhore”. E é isso que eu tento ser com os meus filhos: apenas melhor. Afinal, ser pai é ser você mesmo, só que melhorado, porque agora temos alguém para dar o exemplo.
Feliz Dia dos Pais para todos os Kratos deste mundo!


